MODELOS TRADICIONAIS DE AVALIAÇÃO DE EMPRESAS

por José Maria Pedro

Os modelos tradicionais de avaliação de empresas estão assentes em dados contabilísticos e em critérios restritivos na qualificação dos activos intangíveis, como se pode ver na parte final do capítulo 3 deste trabalho, não podem, por isso, responder à avaliação exaustiva das componentes a considerar no capital conhecimento.

A observação dos modelos tradicionais de avaliação de empresas, foi necessária para compreender até que ponto poderiam servir os nossos objectivos de medição do capital conhecimento. Concluímos que não podem responder por assentarem em critérios restritivos de identificação dos activos intangíveis designados por goodwill. Supostamente, a sua aplicação prática é sempre acompanhada com análises complementares seleccionadas em função dos interesses do avaliador e de quem encomenda a avaliação.

Os modelos tradicionais de avaliação de empresas calculam o Goodwill a partir dos dados contabilísticos passados ou projectados para o futuro. A teoria sustenta que a projecção deve assentar na análise da situação da empresa no seu ambiente, designadamente as condicionantes macroeconómicas, da concorrência, do mercado de capitais, dos dados financeiros e da situação operacional da empresa. A prática é mais conservadora, conduz normalmente à utilização de soluções de compromisso e estimativas aproximadas.

Modelos tradicionais de avaliação de empresas (Goodwill)

O conceito de Goodwill usado por todos estes modelos tradicionais de avaliação de empresas, tem um conteúdo próximo do de Capital Conhecimento que temos vindo a desenvolver, mas é mais restritivo. Ambos pretendem valorizar intangíveis, mas diferem devido à área científica de origem e às metodologias e pressupostos de medição a que recorre cada um dos grupos de teóricos que usam os conceitos. O termo goodwill é usado pelos teóricos da contabilidade e finanças enquanto que o termo capital conhecimento foi criado recentemente pelos teóricos mais próximos das tecnologias de informação.

Os teóricos das tecnologias de informação, abordam o problema numa perspectiva direccionada para a busca de origens e conteúdos para o conceito, assentes na performance dos activos de conhecimento derivados do caminho comum da formação do conhecimento (factos → dados → informação → conhecimento). Os teóricos da visão contabilística e financeira têm uma perspectiva mais prática, rígida e direccionada para a avaliação global de empresas, por ocasião de fusões ou aquisições.

Os modelos de capital Capital Conhecimento tentam integrar outras fontes de dados além dos contabilísticos e financeiros. Partem, em regra, da constatação da existência de conhecimento nas pessoas, no relacionamento, nos clientes, nos processos da empresa, na capacidade de renovação e desenvolvimento e no ambiente onde actua, como é o caso do modelo de Leif EDVINSSON.

 

Síntese dos Modelos Tradicionais

fonte: BASTARDO, Carlos & GOMES, António Rosa in Fusões e Aquisições (M&A) uma abordagem de avaliação de empresas. Texto Editora

 

Modelo do valor de rendibilidade

Permite determinar o valor da empresa, designado também por valor de rendibilidade, a partir da actualização dos resultados líquidos pressupondo que estes se manterão inalterados indefinidamente. No caso de considerar-mos que os resultados líquidos só poderão existir durante um certo número de anos, a actualização deverá ser feita apenas para esses anos e não para um fluxo perpétuo:

 

 

Para este modelo o valor do Goodwill pode ser obtido pela diferença entre o valor da empresa e o Activo Líquido Corrigido:

 

 

As Reservas Ocultas, usadas na determinação do Activo Líquido Corrigido, podem resultar de várias situações, designadamente:

A quantificação das Reservas Ocultas acaba por ser um aspecto muito importante no cálculo do Goodwill e pressupõe a prática de auditoria prévia às contas da empresa sempre que se pretenda avaliar o seu valor global. Se a prática contabilística é irrepreensível, o que é raro, então podemos admitir que o cálculo do Activo Líquido não varia com a parcela das Reservas Ocultas, porque se todos os valores estão rigorosamente contabilizados pelo montante correcto estas não existem.

 

 

Modelo da análise dos fluxos de caixa actualizados ou Discounted Cash-Flow (DCF)

Baseia-se na projecção do cash-flow futuro e no valor residual estimado para a empresa no fim do período de projecção. A série de cash-flows e o valor residual são actualizados a uma taxa adequada à empresa em causa que pondere o risco associado, a inflacção esperada e as alternativas de aplicação. É sugerido para casos onde não é aconselhável usar os resultados passados ou quando não é fácil prever o futuro da empresa.

 

Vr = Valor residual na empresa no fim do período;

I = Investimento;

CF = Cash-Flow

I = Taxa de actualização;

K = Período

n = Número de anos a considerar

O Goodwill será dado pelos cash flows actualizados menos o Activo Líquido Corrigido, como se mostra na expressão:

 

 

Método do valor de rendimento ou de Gordon Shapiro

O modelo de Gordon Shapiro usa os dividendos distribuídos líquidos de impostos e assenta nos seguintes pressupostos:

 

com:

Po = Preço de cada acção no momento zero;

Do = Dividendo Líquido distribuído por acção no momento zero;

RIS = Risco que os investidores admitem para possuir as acções;

Cr = Taxa de crescimento real dos dividendos;

i = Taxa de actualização;

INF = Taxa média anual de inflacção estimada

id = Taxa de crescimento nominal dos dividendos (constante), em que id= INF+Cr

Rd = Taxa de actualização dos dividendos futuros Rd é mais ou menos = a INF+I+RIS

Para ser convergente => id<Rd e RIS>Cr

Se usarmos os mesmos pressupostos que nos modelos anteriores, podemos ter:

 

 

 

Modelo clássico

Neste modelo o valor da empresa resulta da soma do Activo Líquido Corrigido com o Goodwill calculado através de uma grande simplificação. A expressão usada é a seguinte:

 

 

onde Goodwill = n x (Resultados Líquidos) com 1,5<n<3. Alguns especialistas usam Goddwill = (percentagem do volume de negócios).

 

 

Modelo Charmont

Este modelo é usado especialmente em fusões de empresas, considera a rendibilidade, o volume de negócios e o activo líquido corrigido da empresa . A expressão é a seguinte:

 

com:

ALC = Activo Líquido Corrigido = (Activo Líquido) – (Passivo) + (Reservas Ocultas)

AL = Activo Líquido

ValorRendibilidade calculado por um dos três métodos:

V = (Resultados Líquidos) / Taxa de actualização

V = 10 x (Resultados Líquidos)

V = 5 x (Cash-Flow Bruto)

 

 

Modelo da Union des Experts Comptables Européenes (UEC) simplificado ou directo

Para este modelo, o valor da empresa é dado pela soma do Activo Líquido Corrigido e do Goodwill, na seguinte expressão:

 

onde

com:

n = 5 a 8 anos

i = (Taxa dos títulos do tesouro) x 1,5

Resultados Líquidos Corrigidos = 70% ou 80% dos Lucros Líquidos

Activo Líquido Corrigido = (Activo Líquido) – (Passivo) + (Reservas Ocultas)

 

 

 

Modelo da UEC completo

Este modelo pretende dar maior importância aos lucros supranormais. O valor da empresa é calculado pela seguinte fórmula:

 

Para este caso, o Goodwill é dado pela seguinte fórmula:

com:

n = 5 a 8 anos

i = (Taxa dos títulos do tesouro) x 1,5

Resultados Líquidos Corrigidos = 70% ou 80% dos Lucros Líquidos

Activo Líquido Corrigido = (Activo Líquido) – (Passivo) + (Reservas Ocultas)

 

 

Modelo dos práticos ou indirecto

Considera-se que a empresa tem Goodwill quando a rendibilidade da sua exploração é superior à rendibilidade da aplicação alternativa de um capital igual ao Valor Substancial.

Usa a seguinte expressão que combina o Activo Líquido Corrigido e o Valor de Rendimento:

ou

com:

i = (Taxa dos títulos do tesouro) x 1,5

RLC = Resultados Líquidos Corrigidos = 70% ou 80% dos Lucros Líquidos

ALC = Activo Líquido Corrigido = (Activo Líquido) – (Passivo) + (Reservas Ocultas)

 

 

Modelo directo, anglo-saxónico ou da renda do goodwill

O valor da empresa deriva do valor do activo líquido corrigido e da actualização da diferença os resultados líquidos corrigidos subtraídos de um período de juros do Activo Líquido Corrigido em utilização, como se pode ver na seguinte expressão:

com:

i = Taxa de juro, normalmente a taxa de operações activas de m/l prazo

t = Taxa de actualização x 1,25 ou 1,5 conforme o risco do negócio da empresa (t é sempre maior que i)

RLC = Resultados Líquidos Corrigidos = 70% ou 80% dos Lucros Líquidos. Podem ser usados os cash-flows previsionais nesta variável

ALC = Activo Líquido Corrigido = (Activo Líquido) – (Passivo) + (Reservas Ocultas)

 

O valor do Goodwill é dado pelo valor dos lucros esperados capitalizados, através da seguinte expressão:

com:

t = Taxa de actualização x 1,25 ou 1,5 conforme o risco do negócio da empresa

RLC = Resultados Líquidos Corrigidos = 70% ou 80% dos Lucros Líquidos. Podem ser usados os cash-flows previsionais nesta variável

 

 

 

Modelo do valor patrimonial (net asset value – NAV)

Este modelo avalia a empresa pelo valor líquido dos activos. É equivalente à obtenção dos Capitais Próprios da empresa. Trata-se de uma forma de cálculo que pode conduzir a valores muito afastados da realidade porque os activos podem estar subavaliados ou sobreavaliados e muito diferentes do valor de mercado se a empresa estiver cotada.

O cálculo do goodwil não é referido neste modelo.

 

 

Modelo de Stuttgart

Tem premissas idênticas às do modelo da Union des Experts Comptables Européenes (UEC). O valor da empresa é dado pela fórmula:

O Goodwill é dado pela seguinte expressão:

com:

i = Taxa de actualização conforme o risco do negócio da empresa. Os autores que estamos a seguir referem que para um período de 3,5 anos devemos usar 8% e para 4 anos 12%. Esta opção parece pouco pacífica porque a taxa de actualização não deve ser rígida, deve reflectir o risco do negócio em causa.

RLC = Resultados Líquidos Corrigidos = 70% ou 80% dos Lucros Líquidos. Podem ser usados os cash-flows previsionais nesta variável

ALC = Activo Líquido Corrigido = (Activo Líquido) – (Passivo) + (Reservas Ocultas)

 

 

Modelo de Barnay & Calba

Neste método surge um novo conceito associado à avaliação de empresas: Capitais Permanentes Necessários à Exploração (CPNE). O valor da empresa é dado pela seguinte expressão:

 

com:

ALC = Activo Líquido Corrigido = (Activo Líquido) – (Passivo) + (Reservas Ocultas)

CPNE = Fundo de Maneio + Imobilizações + Reservas Ocultas

t = Taxa de actualização conforme o risco do negócio da empresa.

n = Número de anos considerados

 

 

Modelos dos indicadores do valor da acção no mercado

Considera o valor da acção no mercado de capitais e alguns indicadores, designadamente: price earnings ratio (PER), dividendo por acção (dividend yeld) e o rácio preço/cash-flow.

Price Earnings Ratio

O modelo de Gordon Shapiro define a seguinte expressão para o cálculo da cotação:

ou

 

Indicador cotação/valor contabilistico da acção

 

Dividendo por acção

 

Payback period

Tempo necessário para que o valor actualizado dos lucros por acção (futuros) seja igual à cotação actual de uma acção:

 

 

Modelo da alienação de participações do Estado

A alienação de participações do Estado é regulada pelo DL 328/88 de 27 de Setembro onde se estabelece que o preço base de alienação é o que à participação corresponder em função do valor da sociedade objecto de participação, calculado pela expressão:

 

 

onde o Valor Líquido dos Activos e Passivos Reavaliados é calculado tendo em conta:

O Goodwill é calculado a partir das projecções das contas de exploração da empresa para os próximos 5 anos, a preços correntes, pela seguinte expressão:

 

 

com:

S = Valor Substancial: valor líquido dos activos e passivos reavaliados

Lt = Resultado Líquido annual após impostos, adicionado da reserva de reavaliação criada no ano;

n = Número de anos considerado (5 anos normalmente);

fw = taxa de inflacção considerada para o período w;

iw = taxa de actualização = taxa de inflação + 4%

Rt = Remuneração do capital de risco da empresa que será pelo menos igual à taxa de inflação

Goodwill = Valor actualizado dos lucros futuros supranormais

 

veja os modelos de avaliação do capital conhecimento