Importância do conhecimento
por José Maria Pedro
O conhecimento é um tema muito falado actualmente. Inúmeras conferências, seminários, artigos em revistas especializadas, livros e publicações na Internet são uma evidência do interesse que este assunto tem vindo a merecer.
É apresentado como o ouro das empresas. Hoje, não basta ter bons edifícios, bons carros, sistemas de informação fáceis de usar e capazes de processar quantidades imensas de dados, comunicações rápidas que permitam circular rapidamente a informação, é preciso sobretudo dispor da capacidade de usar esses meios e aproveitar exaustivamente as oportunidades de negócio que o mercado oferece.
Não sabemos se existe algum produto de onde o conhecimento esteja totalmente ausente. Desde os primórdios da humanidade qualquer instrumento, mesmo o mais simples, teve algo a ver com a capacidade humana de planear e agir para obter um resultado. Na linha deste pensamento, Thomas A. Stewart diz que o conhecimento "é o ingrediente principal de tudo o que compramos e vendemos, a matéria prima com que trabalhamos".
A tendência para valorizar o conhecimento faz aumentar a importância das pessoas nas organizações. Um empregado é avaliado mais pelos resultados que produz do que pela quantidade de operações que desencadeia ou pelo tempo de permanência na empresa. As tarefas repetitivas ficaram a cargo das máquinas, a agricultura e a produção industrial libertaram uma imensidão de gente para outras tarefas. O homem passa a ocupar-se de tarefas do domínio qualitativo com maior recurso às suas capacidades intelectuais. O exemplo pode ser visto no advogado que é pago em função da qualidade dos argumentos que usa e dos resultados conhecidos das causas que ganha e não pela quantidade de palavras que utiliza nos julgamentos.
O conhecimento é um factor especialíssimo porque quanto mais se usa mais se tem e quanto mais se tem mais se pode ter. Apesar de estar sujeito a desactualização como qualquer activo, cresce com a utilização, é muito diferente de uma máquina que se gasta à medida que é utilizada. Um simples investimento em formação sobre um tema relevante para a empresa, feito numa pessoa com elevado potencial de aprendizagem e de disponibilização para os outros daquilo que aprende pode ser uma iniciativa chave a longo prazo. Este tipo de investimento é feito uma única vez e utilizado indefinidamente, com a possibilidade de servir de base catalizadora para a aprendizagem de outros assuntos ou níveis mais elevados do mesmo tema. Tem um efeito de bola de neve, quanto maior for a superfície, mais neve consegue captar.
A lista de autores que escreveram sobre conhecimento e defendem a sua importância é vasta actualmente. Ikujiro Nonaka assinala a sua importância dizendo que "numa economia onde a única certeza é a incerteza, a única fonte que resta de vantagens competitivas é o conhecimento". A eficácia da decisão e acção na empresa depende dos conhecimentos dos indivíduos que participam nessas decisões e acções. Estar à frente, significa identificar e seleccionar melhores opções, isto é, agir com conhecimento.
Uma organização ou um país pode obter e desenvolver vantagens competitivas se possuir indivíduos mais qualificados. Um economista da Universidade de Califórnia em San Diego, James Rauch, mostrou que para cada ano adicional de educação escolar a produtividade aumenta cerca de 2,8%.
Há novas características na economia. Kevin Kelly um dos autores que estudam este fenómeno refere que a nova economia tem três características distintas: é global; favorece os bens intangíveis - ideias informação e interacção; e é intensamente interligada. Tais características apontam no sentido do crescimento da importância do conhecimento.
Nascem novos tipos de empresas todos os dias assentes quase exclusivamente em activos intangíveis. Os seus produtos são intangíveis e podem ser distribuídos electronicamente através do 'espaço de mercado' pela internet. Tais meios de distribuição e empresas intensivas em conhecimento com produtos digitais são do terceiro milénio. Annie Brooking refere que a importância emergente do capital conhecimento reflecte a crescente dependência dos activos intangíveis nas empresas actuais. O mundo está a mudar mais uma vez, é urgente encontrar novos processos de monitorar e gerir as organizações que reflectem essa mudança.
Laurence Prusak refere, a propósito das alterações que levaram a focar as atenções no conhecimento, seis modificações de relevo com consequências no aumento da importância deste factor:
"Our accelerating world": o ritmo de modificação acelerou para os mercados, tecnologias, oportunidades, competição. Uma mudança rápida das condições significa também obsolescência rápida do conhecimento e a consequente necessidade de criar novos conhecimentos para inovar, criar e manter vantagens competitivas. Os desafios postos à gestão por este ritmo são elevados. A forma mais rápida de mudar o conhecimento é mudar as pessoas porque estas são as detentoras reais do conhecimento. Mas fazer isso é uma decisão pouco sensata porque estas pessoas dispõem de conhecimento necessário e útil à empresa criado ao longo da sua permanência.
"Smart products and service intensity": a natureza dos bens e serviços mudou. Para um laboratório de pesquisa, uma empresa de consultoria, ou de software, o inventário mais importante não é o que conta os activos físicos, mas sim o que identifica o conhecimento acumulado na cabeça das pessoas, nos processos adoptados, nas relações estabelecidas entre as pessoas internas e externas à empresa (colaboradores, clientes e fornecedores). Mesmo nos produtos menos intensivos em informação a componente serviço tem vindo a crescer, incorporando mais conhecimento.
"It’s not a small worl after all": o âmbito das empresas e do mercado mudou, agora é mais amplo com a globalização da economia, passou as fronteiras dos países, de espaço físico passou a espaço virtual, o aparecimento e desenvolvimento do comércio electrónico é uma evidência desta modificação.
"Here today, gone tomorrow": o número e a rotação de base dos empregados mudaram. As empresas procuram reduzir o número de empregados mantendo o mesmo nível de conhecimento nos restantes. Este processo conduz à necessidade de gestão de conhecimento com ênfase para a qualidade e motivação dos colaboradores.
"The coming virtuality" : a estrutura das organizações mudou, tende a ser virtual. Há um realinhamento das empresas no sentido dos mercados, dos produtos e dos processos sem barreiras geográficas. A cadeia de valor pode ser desenvolvida com base em equipas dispersas. A complementaridade entre vários aliados pode ser facilmente levada à prática num espaço virtual. O caso da livraria amazon.com ilustra esta nova realidade, consegue orquestrar a promoção, venda e entrega de mais de um milhão de títulos a partior de um sistema de informação visível em todo o mundo.
"Multiplying connections": as potencialidades das tecnologias de informação facilitam a formalização da gestão do conhecimento e a sua divulgação. A utilização de redes interactivas conseguida com as telecomunicações e tecnologias como groupware, podem aproximar as pessoas, pondo-as em contacto. Pessoas com conhecimentos elevados ficam assim disponíveis para quem pretenda captar esse conhecimento.
Para Lester C. Thurow o conhecimento é a nova base para a riqueza. O controlo e a propriedade do conhecimento são uma grande preocupação actual porque os processos de gestão diferem dos usados para os activos físicos. No passado, esta situação nunca aconteceu, quando os capitalistas falavam da sua riqueza, referiam fábricas e recursos naturais. No futuro os capitalistas falarão do controlo do conhecimento, mas de uma forma diferente. Podemos falar de propriedade de equipamento, fábricas e recursos naturais como bens de capital, mas não podemos falar da propriedade total do conhecimento. O seres humanos possuidores de conhecimento não podem ser transformados em escravos ou em stock vulgar. A questão central na economia do futuro será saber até que ponto alguém controla o conhecimento disponível numa dada realidade empresarial.
A evolução é assinalada também ao nível dos padrões de consumo das consequentes modificações na actividade económica. Stan Davis e Christopher Meyer afirmam que a economia é o modo como as pessoas usam os recursos para preencher os seus desejos que evoluem ao longo da história. A forma como a economia funciona tem mudado ao longo da história, hoje depende de três forças directivas: velocidade, conectividade e crescimento do valor intangível. Velocidade porque cada aspecto de negócio e a organização conectada operam e mudam em tempo real; Conectividade porque tudo está a ficar conectado electronicamente a tudo: produtos, pessoas, empresas, países, tudo; Intangíveis porque qualquer oferta tem duas componentes de valor, uma tangível e outra intangível. A parte intangível está a crescer mais rapidamente.
Há sinais novos na economia interligada. Stan Davis e Christopher Meyer afirmam ainda que os níveis de risco evoluiram, além das mudanças nos negócios e no mercado também assinaladas por Prusak. Há três aspectos particularmente importantes: Primeiro, a informação ficou tão rica e facilmente acessível que o mercado ficou diabolicamente eficiente. Segundo, o declíneo do valor físico como base do valor sublinhou o talento humano e o capital intelectual como o recurso mais escasso para a criação de riqueza. Terceiro, o crescente debate sobre a legislação de copyrights, criptografia e privacidade assinalam a diferenciação entre o capital desenvolvido na era industrial e o capital desenvolvido na economia interligada.
Além de ser cada vez mais determinante e importante na actividade económica, como se viu, o conhecimento distingue-se de um mero recurso, permite criar riqueza independentemente da forma como existe nas organizações. Distingue-se da generalidade dos recursos consumidos durante a produção porque a sua utilização é feita ao longo de todo o processo produtivo e não pressupõe a sua destruição ou desaparecimento com a incorporação. Por isso, adquire o estatuto e a forma de capital, passando a chamar-se Capital Conhecimento.
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veja a identificação do problema da medição e os modelos de avaliação do capital conhecimento