O valor da empresa

 

O valor da empresa sempre foi um elemento importante para todos os stakeholders (interessados na empresa), desde os accionistas que esperam ver o seu património a crescer, aos gestores que esperam ver os seus prémios de desempenho assegurados e também a crescer, enfim ninguém é indiferente a esta variável a que chamamos valor. Diz-se até que é cada vez mais importante na economia actual.

Segundo a Mackinsey & Company, Inc[1] há quatro factores determinantes no papel de crescimento da importância do valor da empresa para os accionistas:

·         A emergência de um mercado activo para o controlo empresarial nos anos 80, do século XX decorrente da falta de habilidade de muitas equipas de gestão na resposta eficaz a mudanças nas indústrias que geriam;

·         A crescente importância das acções nos programas de remuneração da maioria dos executivos séniores das empresas dos EUA e em muitas na Europa;

·         A crescente penetração de acções de holdings como percentagem dos activos detidos, decorrente da forte performance dos mercados de acções nos EUA e UE;

·         O crescente reconhecimento de que muitos sistemas de segurança social, especialmente na Europa continental e no Japão, estão a enfrentar a insolvência.

A assinalável performance dos mercados de acções nos EUA e UE após os anos 80 não contribuiu apenas para a popularização de stock options nos pacotes salariais, mas também levou cada vez mais sectores da população a investir em acções de empresas individuais além dos sistemas de reforma.

A falência dos sistemas de reforma europeus é também um factor de pressão sobre o valor accionista da empresa. Segundo a Mackinsey, em 1990 havia na Alemanha quase dois trabalhadores no activo a descontar para um reformado, em 2035 haverá apenas um trabalhador activo a descontar para um reformado. Os gestores dos planos de pensões terão de procurar resposta para a crescente drenagem de recursos nos sistemas, a única alternativa é aplicar os recursos com rentabilidades elevadas e aumentar a idade de reforma para que os descontos continuem a entrar no sistema. Este movimento de aplicação em acções traz pressão sobre os mercados accionistas internacionais e, em simultâneo, uma atenção especial sobre o valor de mercado das empresas.

Procuram-se novos gestores orientados à gestão de valor. Gestores capazes de uma perspectiva de cash flows de longo prazo não apenas dos ganhos do quadrimestre das acções detidas. Requerem uma visão desapaixonada e fria sobre as empresas e sobre a relação entre os ganhos e os custos de oportunidade do capital aí investido. A perspectiva do gestor de valor caracteriza-se pela habilidade para captar uma visão externa dos negócios e pela disponibilidade para agir sobre oportunidades e criar valor incremental.

Segundo a MacKinsey, há cinco lições a retirar na gestão orientada para a criação de valor:

·         No mercado real, criamos valor quando recebemos um retorno no capital investido maior do que o custo de oportunidade do capital (COC: a melhor remuneração que o capital poderia ter num investimento alternativo);

·         Quanto mais puder investir com retornos acima do custo de oportunidade do capital mais valor consegue criar;

·         Devemos seleccionar estratégias que maximizem o valor actualizado líquido dos cash flow esperados ou lucro económico futuro;

·         O valor das acções de uma empresa no mercado accionista é igual ao valor intrínseco baseado nas expectativas futuras do mercado, mas as expectativas futuras de performance de mercado não devem ser enviesadas;

·         Os retornos que os investidores ganham dependem primariamente mais de alterações nas expectativas do que da performance real da empresa.

A maioria das empresas com acções no mercado bolsista têm um objectivo fixo de criar valor para os seus accionistas. A questão para muitos gestores não é “porque devemos criar valor”, mas sim “como podemos criar valor”. Esta questão coloca problemas muito directos, por exemplo:

·         Como podemos fixar alvos que reforcem o nosso objectivo global de criar valor para o accionista?

·         Como podemos alinhar os nossos processos de gestão com o objectivo de criação de valor?

·         Como devemos estruturar os nossos programas de incentivos?

·         Como podemos promover a ênfase no valor através da cultura da empresa?

Nestas circunstâncias, a construção das bases do pensamento orientado ao valor, pressupõe várias áreas de focagem, designadamente:

·         Deve combinar uma motivação inspiradora com rigorosas metas quantitativas ligadas à criação de valor;

·         Deve adoptar uma aproximação rigorosa para gerir o seu portefólio de negócios para a máxima criação de valor, incluindo reestruturação radical se for necessário;

·         Deve assegurar que o seu desenho organizacional e cultura reforçam o imperativo de criação de valor;

·         Deve desenvolver visões superiores em direcção a drivers de valor em cada um dos negócios;

·         Deve estabelecer aproximações eficazes para gerir a performance das unidades de negócio através de fixação sofisticada de metas e verificação rigorosa de performance;

·         Deve procurar caminhos para motivar os gestores e empregados a trabalhar em direcção à criação de valor através de recompensas financeiras e outros incentivos.

O conceito de valor atinge então um aspecto muito relevante que obriga a cuidados adicionais com os registos contabilísticos sobre os factos que criam riqueza. Contabilizar é registar dados de factos com relevância patrimonial. Para obter dados sobre factos com relevância patrimonial é necessário compreender o conceito económico de valor de um activo ou de um rendimento. Sugerimos a leitura das normas contabilísticas que juntamos em anexo para uma interpretação rigorosa destes conceitos. Resumimos de seguida alguns conceitos mais importantes como o de activo, balanço, responsabilidades, lucro e demonstração de resultados para os leitores que não conhecem a contabilidade.

O valor pode manifestar-se em activos tangíveis ou intangíveis ou em fluxos futuros de rendimento. Um activo é qualquer item de valor económico detido por um indivíduo ou empresa, especialmente aquele que pode ser convertido em cash. São exemplos, moeda, obrigações, contas a receber, inventário, equipamento de escritório, edifícios, terrenos, um carro.

Estes elementos aparecem no balanço contabilístico da empresa, onde o valor total dos activos é igual à soma das responsabilidades da empresa perante os accionistas, constituídas por capital social (acções comuns ou preferenciais) e lucros retidos. Numa perspectiva contabilística, activos são divididos em várias categorias: activos correntes (cash e outros itens líquidos), activos de longo prazo (imóveis, instalações, equipamento) e adiantamentos e diferimentos (despesas para custos futuros como seguros, rendas, juros), e activos intangíveis (trademarks, patentes, copyrights, goodwill).

Rendimento ou lucro para as empresas, é igual às receitas menos os custos das vendas, despesas de operação, impostos, num certo período de tempo e pode ser visto na Demonstração de Resultados publicada anualmente pelas empresas. Rendimento é a razão de existência das empresas, e é frequentemente o factor mais importante na determinação do preço das acções.

O rendimento é importante para os investidores porque dá indicação dos dividendos futuros e do seu potencial de crescimento e de depreciação do capital. Não significa que um ganho baixo ou negativo signifique sempre uma acção má, por exemplo, muitas empresas novas reportam prejuízos quando tentam crescer rapidamente para captar um novo mercado, onde serão mais lucrativas do que seriam se não tivessem investido.

 

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[1] MacKinsey & Company, Inc by Tom Copeland, Tim Koller, Jack Murrin – Valuation, Measuring and Managing The Value of Companies