Alinhamento estratégico de activos intangíveis em organizações não lucrativas e a utilização do BSC

 

Como já foi referido, há vários instrumentos disponíveis para estruturar o desenvolvimento estratégico de uma empresa mas para o Sector Público não há muitas opções de escolha. Pensando apenas nos mais conhecidos entre nós, podemos seguir, por exemplo, os pontos de vista de Adriano Freire[1], de Henry Mintzberg[2] ou de Kaplan & Norton[3].

Uma organização (empresa ou organização não lucrativa) que não possui estratégia e cujas operações não funcionam bem tem os dias contados! Precisamos por isso de um instrumento capaz de ajudar na elaboração da estratégia e de ligar a estratégia à actividade operacional dessa organização. Uma boa solução para este problema consiste na utilização do esquema de Kaplan & Norton em circuito fechado cuja imagem mostramos a seguir adaptada para o sector público:

 

Figura 78 - Estádios do sistema de gestão estratégica ligado às operações

 

Contrariamente aos activos financeiros e físicos, os activos intangíveis são difíceis de imitar pelos concorrentes. Isto faz deles uma fonte poderosa de vantagens competitivas sustentáveis. Uma oportunidade real e revolucionária consiste em estudar e avaliar até que ponto as pessoas, os sistemas e a cultura de uma empresa estão preparados para concretizar a sua estratégia!

Os investimentos em Organização, RH e TI devem estar integrados e alinhados com a estratégia da empresa se esta pretende concretizar plenamente o seu potencial.

Há diferenças substanciais entre os activos tangíveis e intangíveis. Os activos intangíveis raramente afectam a performance financeira directamente. Actuam indirectamente através de interacções complexas de causa e efeito.

O impacto de um activo tangível é imediato. Por exemplo, quando compramos um carro, ele fica imediatamente disponível para utilização e é visível no balanço contabilístico da empresa. Mas quando estamos perante activos intangíveis, por exemplo, investimentos em publicidade, em competências, ou outros do mesmo tipo, não conseguimos identificar os resultados da mesma forma e tão directamente.

A ligação entre estratégia e activos intangíveis também não é fácil de identificar. Compreendendo os problemas associados à valorização dos activos intangíveis, aprendemos que a quantificação do valor que eles criam está embebida no contexto da estratégia que a empresa prossegue. Uma empresa não pode atribuir valor com significado no vácuo a intangíveis como “força de trabalho qualificada e motivada”, mas pode avaliar a utilidade desse activo para a concretização da sua estratégia.

Kaplan & Norton consideram o desenvolvimento de activos intangíveis como um dos aspectos mais importantes da gestão. No Balanced Scorecard que propõem, a perspectiva de aprendizagem e crescimento identifica os activos intangíveis mais importantes para a estratégia (capital humano, capital informação e capital organização).

l  capital humano (skills, talentos e conhecimento detido pelos empregados) avaliado em termos de processos estratégicos, funções e competências associadas;

l  capital informação (bases de dados, sistemas de informação, redes e infra-estrutura tecnológica) avaliado em termos da prontidão para a execução da estratégia;

l  capital organização (cultura, liderança, alinhamento das pessoas com os objectivos estratégicos, habilidade dos empregados para partilhar o conhecimento) avaliado por questionário.

 

Capital Humano é um componente do valor das organizações cuja mensurabilidade ainda é um quebra-cabeças. Existem iniciativas interessantes na área empresarial, mas ainda não existe um método de cálculo pacífico e definitivo.

Dos vários métodos disponíveis apenas alguns são aplicáveis ao Sector Público porque não dispõe de dados suficientes. Faltam dados de produção de serviços e de caracterização das competências dos indivíduos. Os dados disponíveis são em regra desactualizados e não estão completos para que se possam extrair os elementos necessários à determinação do capital humano.

Não tem havido necessidade de dados de produção de serviços porque o financiamento é orientado para input, manutenção de recursos (funcionários, edifícios, carros, etc.) e não para output, produção de tantos serviços de certa qualidade e preço.

Esta limitação quanto ao cálculo do capital humano coloca um grande entrave ao desenvolvimento e alinhamento estratégico dos activos intangíveis, porque não podemos gerir o que não conhecemos!

A obrigatoriedade de definição de objectivos organizacionais e individuais decorrente das exigências do SIADAP, fará aparecer sistemas de controlo da produção e dos recursos nos Serviços Públicos que poderão vir a disponibilizar dados úteis para cálculo do capital humano no futuro.

Apesar da grande lista de objectivos globais, na prática, a ideia geral resultante da aplicação desta norma legal ao sector público é ligar as pessoas aos compromissos organizacionais como se mostra na figura seguinte:

 

Figura 79 - Ligação dos objectivos individuais aos instrumentos de planeamento na AP

 

 

A operacionalização da Lei do SIADAP por gestores qualificados seria suficiente para produzir uma viragem de 180º em toda a Administração Pública, se não existissem condicionantes culturais construídas a partir da infinidade de normas jurídicas às quais os dirigentes da AP foram treinados para obedecer! Pedir aos decisores do sector público actuais que adoptem uma nova filosofia de funcionamento assente em critérios modernos de gestão reinventando os textos legais que conhecem é quase como pedir a um padre que troque a Bíblia por outro texto de orientação base.

Tradicionalmente, um funcionário público é alguém muito treinado para seguir regulamentos, a inovação é algo indesejado neste ambiente de procedimentos altamente regulados e estáveis!

Contudo, a necessidade de mudança organizacional está já presente em grande parte dos dirigentes da AP. A inclusão do BSC nos currículos dos cursos para dirigentes do Instituto Nacional de Administração (INA), a par de outras matérias orientadas à moderna gestão pública, foi uma decisão oportuna que dará frutos mais tarde quando os dirigentes aplicarem os princípios disciplinadores deste instrumento na identificação dos seus clientes e dos serviços prestados, na definição da estratégia e dos objectivos para os respectivos serviços e funcionários.

Trata-se de uma metodologia desenvolvida pelos Profs. David Norton e Robert Kaplan no início dos anos 90 que pretende ampliar a visão dos sistemas de controlo tradicionais, para além dos indicadores financeiros. O BSC é um instrumento útil para gerir e ajudar a concretizar a mudança. A inclusão das perspectivas de cliente, de processos internos e de renovação e desenvolvimento tornam-no ideal para qualquer organização não lucrativa e muito especialmente para a AP.

Os objectivos desta metodologia vão muito para além do que se pode extrair de um mero conjunto de indicadores. Obriga a definir objectivos consistentes, indicadores e metas. Neste sistema tudo é quantificado, o vocabulário vago cede o lugar à objectividade. O BSC quando é aplicado adequadamente pode ainda apoiar transformações organizacionais. Vem daí a sua oportunidade no sector público para reavivar e evidenciar a utilidade dos serviços aí produzidos. O INA fez um excelente trabalho ao colocar o BSC como obrigatório no currículo dos cursos para dirigentes.

A Reforma da Administração Pública é um grande objectivo dos nossos tempos que só pode ser conseguido se todos os decisores a qualquer nível, todas as organizações públicas e todas as pessoas estiverem alinhados.

Nestas circunstâncias, embora existam muitas outras alternativas, o formato do mapa estratégico do BSC para um serviço público moderno poderá ter o seguinte aspecto orientado para a utilidade em vez do lucro[4]:

 

Figura 80 - Balanced Scorecard segundo a Moderna Gestão Pública

 

Convém ter em conta que nenhum BSC é válido se não for criado e interiorizado pelos decisores da organização a que se destina. Não pode ser feito em outsourcing total ou em série, tem de ser feito à medida com o envolvimento de quem o vai aplicar. Por isso, esta proposta deve ser vista apenas como uma mera tentativa da nossa parte não sujeita aos procedimentos necessários à elaboração de um mapa estratégico.

O BSC exige um cuidado especial com a participação e comunicação durante a sua construção para que todos os funcionários fiquem envolvidos e alinhados. É diferente das regras e procedimentos legais que alguém faz para todos os serviços públicos aplicarem. Este aspecto é especialmente importante, porque não se sabe até que ponto os dirigentes do sector público, treinados para executar procedimentos, serão capazes de compreender e usar um instrumento que exige inovação, criatividade e conhecimentos de gestão.

Lembramos que, segundo os teóricos que debatem o BSC, os decisores públicos devem compreender a complexidade deste instrumento e antes de o adoptar[5] colocar questões elementares como:

Há diversos factores que apontam para a existência de vantagens na utilização de um instrumento do tipo do BSC[6] para levar os serviços públicos a caminhar no sentido da “moderna gestão pública”.

A perspectiva de Aprendizagem e Crescimento do BSC, cujo alinhamento interessa conhecer, é formada por três componentes designados por activos intangíveis definidos por Kaplan & Norton[7] como “conhecimento que existe numa organização para criar vantagens diferenciais” e pode estar na forma de Capital Humano, Capital Informação ou Capital Organização.

Os activos intangíveis são relevantes em qualquer negócio, público ou privado. São extremamente importantes em organizações de produção de serviços porque em regra são pouco standardizados e usam massa cinzenta e informação como matérias-primas predominantes e invisíveis.

Vejamos então os dados que temos relativamente ao alinhamento da AP com a Reforma neste enquadramento:

 

 

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[1] Freire, Adriano - Estratégia, Ed. Verbo, 1997. ISBN 972-22-1829-8.

[2] Mintzberg, Henry – Tracking Strategies, Toward a General Theory. Oxford, 2007.

[3] Kaplan, Robert S. & Norton, David P. – Strategy MAPS. Converting Intangible Assets into Tangible Outcomes.  HBS Press, 2004.

[4] Alguns autores defendem uma arrumação diferente das perspectivas do BSC quando se trate de organizações públicas. Todavia, tratando-se de uma orientação para a “moderna gestão pública”, é mais adequado usar o modelo base de Kaplan e Norton para que fique claro que a perspectiva cliente tem de estar no topo do modelo.

[5] William Kaydos - What Should Your Company Measure Besides Financial Results?

[6] Leia Niven, Paul R. - Balanced Scorecard Diagnostics – Mantaining Maximum Performance, ed. 2003, pág. 23 a 30 e pondere a hipótese de aplicar o questionário da página 26.

[7] Kaplan, Robert S. & Norton, David P. – Alignment – Using Balanced Scorecard to Create Corporate Synergies. HBS Press, 2006. ISBN 1-59139-690-5.